Quando eu morrer, dá-me um cravo vermelho, simbolo da liberdade, e leva-me ao mar. Não chores, a vida é o que mais bonito temos e eu procurei sempre viver a minha da forma mais pura possível... Porque sei sorrir e sei chorar... Bem-vindo sejas...
Terça-feira, 22 de Junho de 2010
Em memória de um camarada...

 

 

     Há considerações que todos temos o dever de pensar e, eventualmente, de escrever. Porque todo o fel que foi destilado este fim de semana por gente bafienta não pode nem deve caber numa sociedade dita evoluída. Não pode nem deve passar sem ser devidamente notado, que de gente mesquinha está este mundo repleto...

     Este meu texto é um grito de revolta, um entre tantos que não saíram para a vida publica, para a esfera das coisas que lemos todos os dias. Mas manda a minha consciência que o dê porque basta de estupidez e de hipocrisia. Porque todos temos o direito de não gostar dos outros, mas não devemos escamotear tudo o que nos deram com a sua existência...

     José Saramago era um homem dificil. Tinha algumas considerações que feriam susceptibilidades, especialmente aquelas bacocas que fazem do tabu uma forma de vida. Escreveu sempre o que lhe ia na mente e sobre o que achava que devia. Nada ficou a dever à sua consciência, nada do que pensou deixou de dizer. E nunca fugiu a nenhuma troca de argumentos com aqueles que se consideravam mais ofendidos com a sua coerência, terá até tido o mérito de trazer pessoas para discussões das quais estas nunca teriam ideia de fazer parte...

     O homem morre, a obra fica. Uma vasta obra, diga-se, merecedora até de um prémio nobel. Numa altura em que a censura do cavaquismo se fez sentir através do ministério da cultura, à época servilmente dirigido por uma inenarrável personagem de seu nome Sousa Lara, Saramago seguiu em frente, sempre dado a polémicas e a dizer aquilo que a liberdade que o seu povo conquistou lhe permitia. E nunca olhou para trás porque isso de nada valeria. E por tal censura, teve a coragem de ir para outra terra porque aqui se achou ofendido...

     Saramago merece o nosso respeito pela frontalidade e pela objectividade das suas análises. Poeta mediano, no seu próprio entendimento, revelou-se em obras com base histórica, na contestação do que sempre pode parecer politicamente correcto, mas historicamente bastante passível de ser discutido. Nunca deixou de ser comunista, pelo que dificilmente os seus escritos deixariam de ter um cunho avermelhado. Mas, mais importante, nunca deixou de ser coerente com a sua forma de pensar...

     Considero hoje, como ja escrevi algumas vezes, que Levantado do Chão deveria ser obra ensinada aos nossos filhos. É uma verdade que a direita conservadora tem tentado esconder. Como também acho que Salazar deveria ser assunto de estudo. E uma vez mais, objectivamente, como uma verdade que a direita tem tentado branquear. À memória de nossos pais, porque a história é feita de memórias, daquelas que a minha mãe falava, de noites em que dormia à porta da padaria para poder ter um quarto de pão e vendo passar os criados de gente rica que levavam todo o pão que queriam...

     Por isso ainda hoje recuso participar numa pomposa cerimónia que existe lá na minha terra, à qual chamam de tradição, denominada Sopa dos Feijões. Em tempos não muito recuados, na sexta-feira santa, as crianças pobres da terra juntavam-se ao portão da quinta dos senhores da aldeia, batendo com tachos no portão. A "benemérita" família abria então os portões, servindo às crianças esfomeadas uma sopa de feijões com broa. Hoje glorifica-se a fome daqueles dias e chama-se-lhe tradições. Eu não alinho e repudio quem acha isto tudo muito natural. Como se fosse normal os pobres passarem fome. Se calhar até é. Cada vez mais...

     Vai em paz, camarada. Nem sempre gostei do que tu escrevias, nem sempre concordei com tudo o que afirmavas, mas o todo é sempre a soma de todas as partes. É preciso abrangência de entendimento para passar para além do óbvio. Como diria o principezinho, "o essencial é invisível aos olhos". E o essencial foi toda a coragem e coerência que nos ofereceste ao longo dos anos. Tenho para mim que quando um caixão sai à rua e o o mundo para para bater palmas, ali vai alguém bom. Como fizemos com Álvaro Cunhal. Como fizemos com Amália Rodrigues. Como fizemos com mestre Solnado. Como fizemos contigo. Porque a memória do povo pode adormecer, mas será sempre inalienável...

     Um ultimo apontamento para sublinhar a mesquinhez do senhor aníbal. Não fez falta, é certo, porque só faz falta quem está, mas demonstrou que é uma personagem menor neste tabuleiro da vida que é a história e que continua a ser um indivíduo mal formado. Mas foi coerente com o seu carácter, isso não lhe podemos negar. E preferi ver viçosos cravos vermelhos, que laranjeiras cheias de piolho e mofo...

     Até sempre, camarada. A luta continua. Um dia, havemos todos de ver-nos por aí...



vadiado por homem de negro às 01:41
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5 comentários:
De Helena a 22 de Junho de 2010 às 16:23
Concordo consigo, o "Levantado do Chão" deveria ser um livro obrigatório. Tenho para mim, e salvo melhor opinião, que os jovens o leriam com mais satisfação do que o "Memorial do Convento". É que no "Levantado do Chão", estão as histórias, dos avós e dos bisavós, de gente que ainda pode testemunhar que a vida de pobre era essa mesmo. Nada ali, infelizmente, é ficção.

Se há coisa que desprezo e lido mal é com a caridadezinha e se for embrulhada em tradição familiar ainda pior.

Um abraço


De homem de negro a 22 de Junho de 2010 às 19:03
Olá...
Levantado do Chão é uma obra à qual não tem sido dado o devido valor porque trata de uma verdade incómoda. Porque os nossos pais sofreram muito e passaram fome, mas apenas os pobres, que da outra gente já sabemos bem como é. Como foi antes e como é hoje. É a história da Sopa dos Feijões. Durante o ano inteiro comiam o sangue aos pobres, depois um dia por ano davam um tachito de sopa aos filhos esfomeados. Em português, daquele à maneira do norte e com o devido respeito pela tua pessoa, que vão para o caralho mais tradições destas...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


De Lobaaaaaaaaaaaaaaaaaaa a 22 de Junho de 2010 às 12:48
'Bebi' Saramango. Não tanto quanto desejava. Tenho muito da sua obra, em prateleiras, à espera que a leia (não por falta de interesse, mas sim por falta de tempo). A vida é feita de chegadas e de partidas, e a vez de Saramago chegou.

Não condeno Cavaco. Foi apenas coerente. Provavelmente, se ele tivesse comparecido, muitas outras vozes o condenariam. Considero esta a melhor atitude. Cumpriu com o seu dever como Presidente de Portugal e a mais não é obrigado.

Beijos e quem tem valor perdura no tempo...


De homem de negro a 22 de Junho de 2010 às 18:56
Olá...
Sabes bem que eu sou de trocar argumentos. E gosto destas guerras de palavras. E, como deves desconfiar, não concordo contigo. Simplesmente porque é uma questão de respeito institucional. Saramago é "apenas" o nosso prémio nobel , o único atribuído à literatura portuguesa. Como tal, merecedor de mais respeito das diversas instituições, entre as quais a presidência da república. Eu também acho que Cavaco foi coerente e tive o cuidado de o exprimir. Mas faltou ao respeito à memória de um homem maior do que ele, demonstrando que o rancor de outros tempos ainda perdura, especialmente porque teve de engolir um enorme sapo quando Saramago venceu o prémio nobel . Ficou-lhe atravessado e ainda hoje lhe dói. Como pode verificar-se pela sua ausência, ainda mais encontrando-se de férias nas ilhas, aqui a dois passos...
Já vi as justificações mais esfarrapadas, todas elas vindas da boca de gente do PSD. E até Vicente Jorge Silva foi capaz de ver e afirmar que foi uma falta de respeito e uma vergonha para o presidente da república. Mas, como sempre, as acções ficam com quem as pratica. E importante mesmo foi quem lá esteve...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...,


De Lobaaaaaaaaaaaaaaaaaa a 22 de Junho de 2010 às 21:57
Paz e descanso...à alma de Saramago...

Estas discussões já não lhe restituem a vida.

Um beijo desasossegado.


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homem de negro
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