Quando eu morrer, dá-me um cravo vermelho, simbolo da liberdade, e leva-me ao mar. Não chores, a vida é o que mais bonito temos e eu procurei sempre viver a minha da forma mais pura possível... Porque sei sorrir e sei chorar... Bem-vindo sejas...
Quarta-feira, 31 de Março de 2010
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     Sempre foram mais de 20 anos da minha vida. Fiz-me homem lá, naquelas paredes ficaram muitas gargalhadas, muitas tristezas, muitos amigos. O meu patrão velho era homem de bom coração, bruto muitas vezes mas depois tudo serenava. Respeitava-o, foi meu amigo, quando a minha irmã faleceu disponibilizou-me dinheiro para fazer face às custas do funeral, quando montei o meu negócio, emprestou-me dinheiro para arrancar. Se hoje por alguma razão precisasse de mim, eu estaria disponível...

     Foi meu patrão durante quinze anos, passamos dias difíceis, muitas noites a trabalhar, às vezes ao fim de semana, para que aquela empresa pudesse andar para a frente. E generoso, nunca se esquecia do pessoal do escritório no Natal e pagava ordenados acima da tabela. No fundo, o carinho que eu tinha por aquela empresa provinha também desta nossa relação de patrão/empregado com muita cumplicidade à mistura. E discutíamos politica, mas na hora de trabalhar era para trabalhar. Cada coisa no seu tempo...

     Com a empresa em dificuldades, a solução passava por vendê-la, havia uns espanhóis interessados mas ao meu patrão velho custava-lhe que a empresa fosse para estranhos. Convenceu o filho a tomar as rédeas do negócio e a trabalhar para que a empresa crescesse, de forma a assegurar o futuro de todos. E ele veio, lembro-me que nos primeiros dias pensei que sangue novo na gestão era exactamente aquilo que precisávamos. E prometeu-nos mundos e fundos. Por outro lado, eu já o conhecia, tenho até fotos tiradas com ele, de braço dado, na Queima das Fitas em Coimbra quando andava a tirar o curso...

     Rapidamente verifiquei que me tinha enganado. Como se diz, a montanha pariu um rato. Instalou-se na empresa uma cultura de "quem me lambe o cu é meu amigo, quem não lambe é para abater", os que ele contratava com bons ordenados, os outros com ordenados fracos, arrogante, com a mania que ele é que sabia tudo, desrespeitando quem tanto tinha dado à empresa e tantas dificuldades lá enfrentou, mal-educado, em suma, tão novo e tão mau. E incompetente...

     Caminhámos para o abismo num instantinho com as politicas sem sentido e a má gestão de quem não percebia nada do que estava a fazer. As dividas constantes, o não pagar a tempo e horas aos fornecedores, o substituir empresas colaboradoras com créditos dados (alguns a trabalhar connosco à mais de 30 anos) por empreiteiros de vão de escada, o não pagar aos trabalhadores e ainda ser mal-educado com eles, o continuar sempre de espinha direita apesar de não ser mais que um vulgar caloteiro...

     Quando ia trabalhar de manhã já levava o sangue a ferver a pensar na próxima idiotice que teria de engolir. Porque quem trabalha por conta doutrem engole muitos sapos e, neste caso, devido à época difícil que atravessamos, mais fácilmente se tinha que gramar a postura abusadora e o porte altivo que não eram sustentados pelo carácter da pessoa em questão, antes pelo contrario. No fundo, uma fraude, onde as caganças eram mais que as andanças...

     Aturei-o até ao dia que me fartei das mentiras pois, uma vez mais, nos mentiu acerca do pagamento do ordenado. Mandou passar os cheques e depois voltou com a palavra atrás. Não tolerei tal, fui ao banco e levantei o meu ordenado e resolvi enfrentá-lo. Tornou-se evidente que a minha única saída era a porta da rua, ou negociava ou ia para tribunal. Negociei, o tribunal levar-me-ia pelo menos dois anos e a minha convicção era a de que a empresa não duraria tanto. Isso e alguns avisos que gente honesta me fez chegar. E vim-me embora com a convicção de que a culpa não era minha, mas de um empresário da treta, o que na gíria da construção civil se chama pato-bravo...

     A empresa à qual entreguei mais de vinte anos da minha vida,  ficou para trás. Trouxe de lá muitas recordações e muitas dúvidas, mas também a vontade de começar de novo num qualquer sítio onde me respeitassem e ao meu trabalho. Não está a ser fácil, mas eu vou à procura todos os dias. E não tenho medo da luta porque endireitei a espinha e porque agora não tenho que engolir mais sapos. Pelo menos deste indivíduo...

     A empresa onde trabalhei toda a minha vida de adulto entrou em insolvência na segunda-feira. Os meus ex-colegas ficaram com três ordenados por receber....

 



vadiado por homem de negro às 23:15
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