Quando eu morrer, dá-me um cravo vermelho, simbolo da liberdade, e leva-me ao mar. Não chores, a vida é o que mais bonito temos e eu procurei sempre viver a minha da forma mais pura possível... Porque sei sorrir e sei chorar... Bem-vindo sejas...
Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013
O menino e o cão...

 

 

     Fidalgo de seu nome, corre monte acima. A liberdade que lhe permitiu deixar a corrente para trás, triste companheira do resto dos dias, deixa-o inebriado. Mas tal Fidalgo é cão de guarda, pelo que estar preso acaba por ser o normal. O que deixa triste o menino, que gosta de o ver correr amalucadamente, de língua de fora. É por isso que, de vez em quando, o Fidalgo corre livre como o vento, monte acima. E leva atrás de si o menino que chama "Cão, cão, anda cá". E o cão nada lhe liga, já se sabe que está inebriado com a liberdade. São amigos os dois, costumam brincar juntos, de forma adoudada, porque, também já se sabe, estes canzarrões da Serra da Estrela não têm a percepção que são grandes...

     No alto do monte, o Fidalgo e o menino acabam por se encontrar. Por entre pinheiros, oliveiras e mato. Um de língua de fora, o outro afogueado da correria, com o rosto cheio de cores bonitas. E vai de ralhar com o canzarrão que, de orelhas arrebitadas, parece perceber que não devia ter corrido monte acima. Nem monte abaixo, já agora. Sempre são quatro pernas contra duas, o que, já se vê, não dá grandes hipóteses ao menino. Mas o menino ralha de sorriso pronto e toca de abraçar o seu amigo canzarrão que, mesmo sentado, continua a ser grande. Com o Fidalgo à trela, seguem os dois então monte acima. Sempre um conversando e o outro arrebitando as orelhas. Agora mais devagarinho porque estão ambos cansados e isto de correr monte acima tira o fôlego...

     São engraçados, estes dois. Um ralha, sorri, dá abraços, puxa pela trela e volta a ralhar: "Anda, cão, não é para aí". O outro puxa para o lado contrario, é desobediente, parece igualmente sorrir e também sabe dar a pata. Os dois juntos enternecem, já se conhecem desde aquele dia em que o então cãozito veio da Serra da Estrela, farfalhudo, dentro de uma caixa de plástico com cabeça deitada no colo do menino. E lhe vomitou as calças pelo caminho. E o cão, agora canzarrão, é já grande mas ainda continua a ser cão menino. Nota-se-lhe na forma de brincar e de correr, sempre de forma adoudada. E é por isso que tem de estar preso, não vá algum automóvel apanhá-lo solto e dar-lhe uma pancada. Que o canzarrão da tia Preciosa fez um prejuízo de perto de 500 euros numa carripana, embora conste que a tia foi comida por parva, ficou sem o cão e sem os euros...

     Uma pausa para ver o por do sol do alto do monte. Sentados, lado a lado, o cão e o menino traçam um cenário de carinho. Que isto de ser amigo de um cão é para toda a vida. Fala-lhe o menino: "Está quieto, cão, que temos de ir embora". E o Fidalgo aproveita para lambuzar a cara afogueada do menino com aquela língua enorme e molhada. São amigos, nota-se bem. Gostam de estar juntos. Apesar da corrente que no fim do dia regressa ao pescoço do Fidalgo. Mais logo, quando for dormir, e depois de feito o respectivo desenho acerca do passeio, o menino há-de sonhar com correrias monte acima. Que nestas coisas de liberdade, os meninos são como os cães, é soltá-los e deixá-los ir. E, por entre os sonhos, seguramente, há-de sorrir. Já se sabe, sorriem os dois...

 



vadiado por homem de negro às 09:00
Ligação vadia | Vadia para mim

2 comentários:
De Helena a 31 de Março de 2010 às 11:42
Que bom que ainda há meninos que gostem de passear pelos campos, correr e subir montes.

Eu, que um dos valores que mais prezo é a liberdade, revejo-me neste texto e na vivência das coisas simples e belas, como é andar pelos campos.

Um beijinho

Helena


De Lobaaaaaaaaaaaaaaa a 30 de Março de 2010 às 11:35
Ena, ena... que puto grande...

Os cães da serra são lindissimos. E meigos. Nota-se.

Um beijo apressado [o trabalho absorve-me completamente].


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homem de negro
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