Quando eu morrer, dá-me um cravo vermelho, simbolo da liberdade, e leva-me ao mar. Não chores, a vida é o que mais bonito temos e eu procurei sempre viver a minha da forma mais pura possível... Porque sei sorrir e sei chorar... Bem-vindo sejas...
Sábado, 9 de Janeiro de 2010
Contas à vida...

 

 

     Feitas as contas, foi seguramente um dos piores anos da minha vida. As coisas más foram-se sucedendo, numa interminável espiral de dor e mágoa. A morte da minha mãe, porque de tão súbita foi, deixou-me tão vazio e tão sozinho que ainda hoje não sei muito bem como consegui recuperar. Restam-me dela recordações maravilhosas e a companhia da sua imagem de sorriso pronto e dichote corrido, e muitas outras que fui trazendo para este blog para manter viva a recordação de quem tanto me amou e quem tanto amei...
     Findas as exéquias, foi tempo de me fazer à vida. Ironicamente, nunca tive grande ligação com o meu pai, continuo a não ter, mas agora sou eu que cuido dele, que trato da alimentação, da limpeza, que lhe coloco a roupa limpa para ele vestir, as coisas que a minha mãe fez quase até ao fim da vida dela, apesar dos maus tratos que ele lhe deu a vida toda...
     E digo ironicamente porque ele nunca me ensinou o sentido de cuidar de alguém, nunca soube dar-me um dia do pai a serio, nunca foi um amigo, mas agora em tudo depende de mim e para tudo sou eu que vou em frente. Até porque no dia do velório disse à minha mãe para ir descansada que eu cuidaria dele...
     As idas ao médico, os passeios de Domingo à tarde, as contas que há para pagar, sendo que ele continua como era, intratável e com a mania de que ele é que tem sempre razão. Como ele não mudará nunca, sou eu que tenho de me adaptar, uma vez mais sou eu que tenho de me calar para que as coisas corram minimamente bem. Quando a conversa começa a levar determinados rumos, é simples, viro as costas e vou embora. É melhor assim...
     Seguidamente, os restos mortais do meu casamento voltaram para me assombrar, com o meu ordenado a ser penhorado para pagar as dividas da minha ex-companheira. Uma vez mais, tanta lágrima chorei por não ver qualquer luz ao fundo do túnel, apesar de sempre dizer que é só dinheiro e dinheiro eu ganho mais. Dessa relação maldita de onze anos apenas o meu filho valoriza todo esse tempo...
     Continuamos os dois em frente, choramos muitas vezes juntos, partilhamos caminhos que, tenho a certeza, muitos pais nunca trilharam. A escola, o futebol, a fotografia, o por do sol, o mar, o Alentejo, os passeios estrada fora sem destino e sem rumo. "Mais uma vadiagem", porque sentir o vento no cabelo e o sol na pele é dos melhores remédios para curar a tristeza...
     Para acabar o ano, o golpe final, perder o emprego na empresa à qual dediquei 21 anos da minha vida. Trabalhei lá desde os meus dezoito anos, a minha vida profissional foi toda construída lá, o meu curso superior foi tirado a trabalhar lá, acompanharam-me no meu casamento e nos meus funerais, no nascimento do meu filho, em dias muito difíceis quer para mim, quer para outros colegas, com salários em atraso, falta de trabalho, desilusões laborais, etc, etc, etc...
     No entanto, apesar de tudo isto, de lá vim com o sentimento do dever cumprido e com a firme convicção de que muitas empresas não são rentáveis porque quem as gere nada percebe do assunto e quem acaba por pagar os desvarios são os trabalhadores. Novamente com salários em atraso, não pude mais continuar a engolir sapos pelo que nesse dia só me restava o caminho da saída. Mas saí de cabeça levantada e depois de ter feito frente a um administrador incompetente que apenas sabia maltratar os trabalhadores e pagar-lhes tarde, de má vontade e a más horas...
     Um ano horrível, de facto, mas que só reforça a minha convicção de que devo ser capaz de enfrentar quase tudo. O meu filho ajuda-me a sorrir, a lutar, a querer mais, por ele volto à estrada na luta que é encontrar um trabalho. Porque nada afecta tanto a nossa auto-estima e dignidade que o facto de não ter trabalho, é como se fossemos párias da sociedade. E eu não quis nunca receber do desemprego ou da baixa, apesar de agora ter de o fazer...
     Levei dois meses a endireitar a minha cabeça e a afastar de mim o desespero. O Natal foi bom, passei-o com o meu filho e o meu pai, agora sem os coscorões da minha velhota, mas com o tradicional bacalhau e couves, cozinhados por mim, e as prendinhas, a arvore de Natal e um bom branco ao jantar. O fim de ano foi por terras da Figueira da Foz a ver o fogo de artifício, na companhia de uma boa garrafa, sendo que parte bebi eu, parte beberam as rodas da minha menina vadia. Repetiu-se o ritual de outros anos para que a estrada seja feita em paz...
     Para este ano novo acima de tudo quero apenas saúde e encontrar um trabalho. E sei que vou conseguir pois as perspectivas são interessantes. E múltiplas, pelo menos para já, o que não deixa de ser surpreendente face à época difícil que atravessamos. Embora eu ache que a crise é desculpa para muita gente incompetente se justificar...
     Um excelente ano com muita paz e saúde, companheiros e companheiras. A gente vê-se por aí...
 


vadiado por homem de negro às 01:48
Ligação vadia | Vadia para mim

4 comentários:
De A a 19 de Janeiro de 2010 às 16:47
Olá

Tanto tempo sem escrever...ainda bem que foi apenas uma fase e que regressaste. Habituei-me a ler e senti-lhe a falta.

Espero sinceramente que 2010 seja um ano mais tranquilo! E que te traga tudo o que mereces!

Tens duas qualidades que são espantosas e que certamente te ajudarão pela vida fora a construir aquilo que desejas - a tua força de vontade e o optimismo!

Um bom ano para ti e para o teu filho!

A





De Helena a 14 de Janeiro de 2010 às 14:44
De facto, parece que foi um ano para esquecer.

Desejo que o ano que agora começa lhe traga mais coisas boas, a começar pelo emprego.

Faça muitas viagens, tenha saúde, tenha alegria, amor e o seu filho sempre presente.

Engraçado, também passei do ano velho para o novo na praia, estive em São Pedro de Moel, adoro praia no Inverno.

Um beijinho.

Helena


De __ a 12 de Janeiro de 2010 às 15:00
Realmente, não foi um ano famoso... tornou-te mais forte.

Para este ano deseja apenas ser simples. E já sabes, a beleza reside na simplicidade.

Um beijo querido [sem vírgula, para não pensarem que te estou a chamar querido... :)].


De Ibel a 10 de Janeiro de 2010 às 23:01
Vim aqui desembocar por acaso e gostei de ver um homem a abrir o coração sem complexos de mostar os seus amores , desilusões, frustrações e esperanças.
Gosto desse amor pela mãe. Senti o mesmo que você sentiu quando ela morreu e dediquei-lhe o meu blog.
Amor de mãe é eterno.


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