Quando eu morrer, dá-me um cravo vermelho, simbolo da liberdade, e leva-me ao mar. Não chores, a vida é o que mais bonito temos e eu procurei sempre viver a minha da forma mais pura possível... Porque sei sorrir e sei chorar... Bem-vindo sejas...
Quinta-feira, 19 de Março de 2009
Procuro um sorriso...

 

 

     Estranho dia do pai, este. Estranho e meio triste. Começou com os bombeiros à minha porta para levarem a minha velhota ao hospital, que já não a consigo levar na menina vadia. A consulta teve como resultado aquilo que já sabíamos, ela melhor do que ninguém porque as dores têm sido terríveis: vão tentar salvar a prótese do joelho, mas tudo indica que o corpo a rejeitou e por isso todas estas dores e inchaços. Um ano depois e duas operações  seguidas, foi tudo em vão...

     Não consigo descrever exactamente o desânimo que me vai na alma. Tento parecer sempre alegre e bem disposto, mas tudo isto não tem sido fácil. Não por mim, que me aguento à bronca, mas pelo sofrimento que lhe vejo nos olhos encovados, verdes apagados, nas lágrimas que às vezes deixa fugir, no facto de não comer, no sorriso que já não vejo há muito tempo. Bem ando de volta dela com parvoíces e mimos, mas não sei para onde foi o sorriso dela...

     Às vezes tenho medo que me faltem as forças, que não consiga dar cumprimento a esta estranha empreitada, que não consiga estar lá para ela. Mas arrependo-me desses pensamentos porque, na verdade, quem sofre realmente é a pobre velhota. Os seus 76 anos já pediam um pouco mais de paz e de sossego para poder gozar da companhia do neto, para que eu os pudesse levar a passear os dois, por entre o sol e o mar...

     Para já, o médico disse-me que vão tentar salvar a prótese, que farão tudo o que for possível. Se não conseguirem, terão de a retirar e fixar o joelho. Isto significa que serão mais seis meses entre o hospital, casa e recuperação, com a agravante de lhe serem colocados uns ferros que atravessam a perna, creio que lhe chamam antenas...

     O meu destino acaba por estar aqui nos cuidados que presto à minha mãe, na atenção que lhe dou, em tudo o que faço para tentar recuperar a sua boa disposição. Por estes dias, a vida tem sido tão a correr que mal caio na cama é aterrar até de manhã. Entre as coisas do meu filho e as coisas da minha mãe, mal tenho tempo para mim, mas isso é o que menos importa nesta altura. Sempre tive pelo menos o fim de semana que passou que me soube pela vida. Apesar das lágrimas que já hoje não consegui evitar, essas mesmas que me bailam agora ainda...       

     Estranho mesmo este dia do pai. Não pelas prendas encantadoras que o meu filhote me deu, de produção própria, mas pelo vazio que sinto pelo facto de ela lá ter ficado, uma vez mais, deitada no meio da tristeza que já não lhe consigo arrancar. Nem sequer sou um menino da mamã, sou demasiado abrutalhado e rude para tal, mas sinto a falta do sorriso dela, da sua presença, do conversar com ela, de fazermos o jantar a meias, das guerras com o neto porque ele não quer comer a sopa...

     Depois da escolinha do futebol, fui jantar com o filhote para ver se isto melhorava, mas hoje não é mesmo o meu dia. Nem noite. Nem aquele abraço dele que me costuma serenar a alma hoje resultou. Nada resulta. Apenas e sempre a imagem da minha mãe sentada na cadeira de rodas com uma tristeza infinita no olhar. E a sensação brutal de impotência que me atira abaixo...

     Como sempre, amanhã é um novo dia, eu sei, há que levantar a cabeça e cerrar os dentes, haverá seguramente novas forças para lutar por eles. Espero eu, que ainda não me esqueci do bacalhau à lagareiro que ficou prometido e esquecido lá mais para trás...

     Mas até que ponto pode alguém tanto sofrer sem querer desistir?

 

 

 


sinto-me: Desanimado...
música: Imortais - Mafalda Veiga

vadiado por homem de negro às 23:35
Ligação vadia | Vadia para mim

13 comentários:
De Carla a 2 de Abril de 2009 às 12:57
Ola é a 1ª vez que ca venho e nao podia deixar de comentar este post que me parece tao familiar é que tal como tu tambem sinto tudo isso em relaçao a minha mae e a tudo que escreves.
Tambem me sinto cansada,perdida,desanimada sei la mais o quê mas vou vivendo e levando a vidinha em frente dia apos dia .
Um beijinho grande de uma mulher do norte que vai passar a vir ca mais vezes ****


De homem de negro a 2 de Abril de 2009 às 14:59
Olá...
Sê bem vinda então, se por aqui encontrares palavras que te animem, deixa em troca algumas que animem outros. Porque ainda continuo a acreditar que somos uns para os outros...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


De Carla a 2 de Abril de 2009 às 15:06
Ola obrigado força e muitos miminhos á mãe pois quanto a mim acho que é o melhor que podemos fazer .


De felicidade a 27 de Maio de 2009 às 14:28
ola boa tarde a todos!!

eu escrevi aqui pq o meu pai esta a ser operado neste preciso momento, a retirar a protese do joelho que também vao por a perna fixa.
tem 72 anos cheios de sofrimento, 5 x operado aos mesmo joleho e no passado natal 3 arterias que ele colocou no coração. Cheio de força cheio de vida e entusiasmo que vejo nos olhos do meu pai para alem da anciedade e medo que ele nao deixa sequer transparacer , mas eu sei. Eu sei ...
E eu?? E eu com 35 anos filha mais nova, ando aqui de um lado para o outro, constantemente, com ele e com a minha mae .... tou cansada, derriada , saturada, nem sequer consigo ouvir as pessoas.... atiro logo a matar! sem dó nem piedade! tadinha da minha filha, Ines , desculpa a mae meu amor.

desculpem este desabafo, mas eu entendo-te muito bem!

beijo grande na esperanças que melhores dias viram



De homem de negro a 5 de Junho de 2009 às 01:13
Olá...
Sabes, os dias melhores não vieram, antes pelo contrario, mas quem me dera poder voltar a sentir todo este cansaço, a andar saturado, a mais não poder. Porque agora é que mais nada posso mesmo...
Coragem companheira, a vida reserva-nos destas coisas, cabe a nós ir em frente. Sempre. Todos os dias...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


De Lobaaaaaaaaaaaaaaaaa a 27 de Março de 2009 às 17:39
As melhoras rápidas da tua mãe.

Um beijo de ânimo.


De homem de negro a 31 de Março de 2009 às 11:35
Olá...
Ingfelizmente as melhoras não são nenhumas, éstamos a aguardar que a prótese seja retirada e depois lhe fixem o joelho. Aparte isso a vida vai seguindo...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


De Dulcilena a 26 de Março de 2009 às 12:41
Olá kerido filhote,
Sinto muito o que está a acontecer à tua mãe, mas como eu já te tinha dito, isso acontece muitas vezes e como sabes a idade também pesa e atrapalha.
Esperemos de daqui para a frente ela melhore rapidamente, é o que eu desejo sinceramente.

Beijinhos Dolces meu vadio


De homem de negro a 27 de Março de 2009 às 09:34
Olá...
Andanças da net , que alguns vêem com maus olhos apenas porque são os seus, trazem para a nossa vida pessoas que são muito importantes para nós. De virtual, apenas a forma como que comunicamos. De real, tudo o que damos. Obrigado pelo carinho, minha outra mamã, gosto muito de ti...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


De Genny a 24 de Março de 2009 às 09:56
É realmente triste ver doentes as pessoas que mais gostamos. Além do sofrimento é ter consciencia que pouco podemos fazer. Mas tenho a certeza que a tua mãe sabe e sente o amor que vocês têm por ela.
Um grande abraço.


De homem de negro a 24 de Março de 2009 às 12:55
Olá...
Saber, sabe, mas de que lhe serve quando as dores lhe atravessam o corpo? O melhor que posso fazer não chega. E isso atormenta...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


De Helena a 20 de Março de 2009 às 11:36
Lamento tanto, o sofrimento de sua mãe e o seu. Sei bem, infelizmente, o que é sofrermos por vermos as pessoas que mais amamos doentes e fragilizadas. Dê-lhe coragem e transmita confiança, não é fácil, eu sei, mas é o melhor. E miminhos, muitos, abraços e beijos tantos, tantos.
Para si uma palavra de ânimo, é pouco, mas é o que lhe posso dar e dizer-lhe que melhores dias virão, de certo. O bacalhau e a estrada esperam-vos. O Alentejo lá está, esperando a vossa visita.
Para a sua mãe um beijinho carregado de boas energias e o desejo, sincero, que tudo lhe corra bem, que volte a sorrir e a apreciar a vida, que pelos vistos, não tem sido muito generosa com ela.
Um abraço apertado com muita ternura. Não se vá abaixo.
Helena


De homem de negro a 24 de Março de 2009 às 12:52
Olá...
De facto, a vida nunca foi muito generosa com a minha mãe, pelo menos em bom trato. Esforço-me para que o que resta do seu caminho seja feito em paz, mas há coisas que não dependem de mim e me fazem ter medo de perder as forças. Só isso, que no restante estarei sempre por perto...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


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