Quando eu morrer, dá-me um cravo vermelho, simbolo da liberdade, e leva-me ao mar. Não chores, a vida é o que mais bonito temos e eu procurei sempre viver a minha da forma mais pura possível... Porque sei sorrir e sei chorar... Bem-vindo sejas...
Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009
Eutanásia...

 

 

     Parece-me que esta gente que se chega à frente, aos microfones, e disserta sobre a eutanásia, não sabe lá muito bem do que está a falar. Acredito que, em grande maioria, nunca passaram por nada dessa natureza, mas aprestam-se a tecer considerações que, pelo menos a mim, me revoltam os fígados...

     Por isso aproveito hoje um texto que escrevi em tempos baseado na minha própria história. Alinhavei estas palavras vai para dois anos e meio e estas continuam tão actuais, tudo o que escrevi na altura podia ser dito hoje. Porque nos últimos dias a sociedade parece querer crucificar um pai que apenas quis deixar a filha partir em paz, depois de tantos anos a sofrer. Ambos a sofrer, ambos em paz. Um dia...

     A eutanásia, para mim, deveria ser uma opção de quem sofre ou de quem pode, porque ama, decidir esse fim. E não digo isto de ânimo leve porque, há 17 ou 18 anos atrás, quando a minha irmã teve um avc e morreu, se tivesse sobrevivido seria apenas um vegetal, perderia todas as funções que faziam dela uma mulher lindíssima, perderia o seu sorriso, perderia a fala, perderia a loucura saudável dos seus 20 anos...

     E nós, eu e os meus pais, morreríamos todos os dias enquanto ela vivesse, por vê-la ali naquele estado, deitada numa cama provavelmente com um tubo a alimentá-la, certamente sem ver, sem sentir, sem gostar, sem amar, sem conseguir poder ser dona das suas necessidades mais básicas... E não vale a pena o argumento de que hoje em dia se recupera de um avc porque recuperam apenas aqueles que os têm ligeiros e é facilmente perceptível a dificuldade com que recuperam, agora imaginem um avc massivo...

     Se ela tivesse sobrevivido, não nos assistiria o direito, porque a amávamos, de poder decidir terminar com o sofrimento dela? De poder, por assim dizer, "desligar a máquina", a quem tanto gostava da vida e por um fim a um estado em que não há volta, não há retorno? Não teríamos nós, os que a amavam, o direito de não querer morrer um pouco em cada dia porque ela estaria a morrer todos os dias? Seríamos egoístas por isso? Seria colocado em causa o nosso amor?

     Ainda posso traçar outro cenário: imaginem a dor de uma mãe a ver a filha naquela situação, sabendo que ela nunca mais seria a sua menina que lhe dava algumas dores de cabeça, mas que nem era das piores, imaginem o que sentiria a minha mãe se tivesse de passar o resto dos seus dias cuidando de quem nunca lhe pudesse devolver um carinho, um beijo, agradecer uma festa, voltar apenas nem que fosse por breves instantes. Não teria a minha mãe o direito de, porque amava a sua filha, decidir que era tempo de parar com a agonia? De conferir alguma dignidade a quem tanto amou? Será que eu ainda teria mãe hoje?

     "Foi melhor assim", foram as palavras de um familiar meu para mim, um médico analista que assistiu à autópsia. Na altura pareceram-me palavras tão cruéis para dizer a quem chorava lágrimas de sangue, demasiado cruéis, mas que hoje fazem todo o sentido, embora eu lamente profundamente que nós, caso ela tivesse sobrevivido, nunca pudéssemos demonstrar à minha irmãzita que a amávamos profundamente e que por tanto a amarmos lhe iríamos  "desligar a máquina"...

     O assunto é polémico, a lei dos homens é estúpida e o direito à vida ou opção de terminar com ela deveria pertencer a cada um, ainda que legalmente suportado num conjunto de pressupostos médicos, racionais, afectivos, efectivos, reais, longe das ideias retrógradas, fundamentalistas e hipócritas da religião(de relembrar que o Vaticano pediu perdão para os responsáveis!!!), no pressuposto de que cada um deve ser dono de si... Se nascemos sem pedir, se morremos sem querer, porque não morremos quando desejamos?

     Choro... ainda choro hoje.... ainda choro muitas vezes pelas saudades que tenho dela... E por tanto ter chorado, pelo muito que sofri, compreendo muito bem que o pai de Eluana quisesse parar com o sofrimento, que partiu três dias depois de desligada a alimentação, 17 anos depois do acidente, 10 anos a lutar em tribunal, tempo demais para quem necessitava apenas que a deixassem partir, finalmente em paz. E compreendo bem porque tive de ir em frente amparando o caminho dos meus pais, especialmente da minha mãe que, até hoje, ainda continua a chorar quando o assunto é a sua menina. Mas, e isso é tão verdade, foi melhor assim...

     É por isso que eu acho que ao ler que o governo italiano considerou não ter chegado a tempo por não ter conseguido aprovar uma lei que evitasse este gesto do pai de Eluana, quando leio que o Vaticano pede perdão para os responsáveis, parece-me que esta gente não sabe mesmo do que está a falar. Não pode mesmo saber. Porque, quer eu, quer os meus pais, seríamos dos que que desligariam a máquina. Porque simplesmente a amávamos. Será assim tão difícil perceber a simplicidade lógica deste raciocínio?

     A gente vê-se por aí...

 

 

 

 


sinto-me: Todos nós choramos...
música: Everybody hurts - REM

vadiado por homem de negro às 23:29
Ligação vadia | Vadia para mim

4 comentários:
De gi a 25 de Fevereiro de 2009 às 22:43
Amigo
No amor não há lógica nem simplicidade...
apenas o vale tudo...
até desligar a máquina, ou simplesmente a ansiedade de eternamente continuar junto dos que amamos...
Como diz a canção, "só Deus tem os que mais ama" e nós vivemos repartidos entre o cruel ter e o mais cruel não ter...e nunca seremos capazes de uma opção digna de ser julgada e apelidada de justa, de trazer a felicidade ou o conforto seja a quem fôr.
Essa é a nossa condição de seres imperfeitos, apenas com o amor como caminho e alavanca para todas as legítimas decisões.
Entendo o que dizes hoje, entendo o que um dia já sentiste...
Mas também sei que és dos que apenas deixarás desligar a máquina, não quando faltar a perspectiva de vida de quem a ela estiver ligada, mas apenas quando a tua própria força se tiver esgotado a par da perda de quem amas...e só aceitarás aquilo que realmente não podes mudar, tal como a morte, apenas depois de a reconheceres como realidade na qual não pudeste interferir ou atrasar um bocadito mais que seja.

beijito vadio e muita amizade
gi


De homem de negro a 11 de Março de 2009 às 09:55
Olá...
Pois, só aceitarei mesmo aquilo que não puder mudar, como será a morte, mas gostaria de ter sempre a capacidade para discernir o que é correcto ou até onde posso ir. E, sabes, trago sempre o caso da minha irmã porque é o que conheço e que me dá a experiência que me permite falar, teriam passado quase 20 anos e haveria coisas que não se podiam prolongar eternamente. Mesmo que ela tivesse sobrevivido, poderia ficar em coma eterno. Não estaria morta à partida?
Um beijo vadio e obrigado pelas tuas sábias palavras. A gente vê-se por aí...


De ladymagenta a 23 de Fevereiro de 2009 às 20:51
tudo o que disses-te é tão verdade...tanto ontem como hoje...

a gente vê-se por aí


De homem de negro a 11 de Março de 2009 às 09:57
Olá...
Algumas verdades são imutáveis, não têm mais que uma versão. A morte é uma dessas verdades, morre-se e pronto...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


Comentar este texto vadio

homem de negro
Procurar vadiagens
 
Janeiro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


Vadiagens recentes

Parabéns...

Minha querida India...

Amor incondicional...

Amor incondicional...

Procurando...

Coisas que eu sei...

Ora pois...

El comandante...

You and I...

...

Até amanhã, camarada...

Um ano mais....

Dias felizes...

O menino e o cão...

Hoje é sexta feira 13...

25 de Abril sempre?

O tempo e saudade...

Olá...

Até já...

Recordar-te...

Vadiagens guardadas

Janeiro 2016

Novembro 2015

Março 2014

Janeiro 2014

Outubro 2013

Junho 2013

Maio 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Julho 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Setembro 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

antros de perdição
sons vadios...

Search Video Codes
blogs SAPO
subscrever feeds