Quando eu morrer, dá-me um cravo vermelho, simbolo da liberdade, e leva-me ao mar. Não chores, a vida é o que mais bonito temos e eu procurei sempre viver a minha da forma mais pura possível... Porque sei sorrir e sei chorar... Bem-vindo sejas...
Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009
Os dias da nossa vida...

 

     Achou por bem pegar-lhe na mão. Lá em baixo o rio corria, por entre os montes, até sumir no horizonte. Um café e um doce, o sol que aquecia o corpo, o olhar que falava mais e mais. Tinha sido sempre assim, algures o tempo juntava as suas vontades e tornava o dia mais bonito. Embora depois tudo seguisse normalmente, ele há horas que valem pelo todo e dão sentido a dias mais sem sentido...

     Sorriu-lhe. Os castanheiros começavam a abrir e ele fotografou-os para mais tarde recordar. O velhote aproximou-se para ver de que modas era feito aquele estranho que rondava as castanhas. Que isto nos dias que correm até as castanhas marcham. Descansado, o velhote sorriu-lhes. Retribuíram o gesto, que nada desarma mais alguém que a luz de um sorriso...

     Seguiram, a estrada subia em direcção ao alto do monte. A velha capela, uma vez mais vandalizada, como se até a fé fosse coisa de somenos importância nos dias que correm. Cada um é que sabe, é certo, mas ele há coisas que são gratuitas e de nada servem, nem marcam qualquer posição. Apenas estupidez, essa fica sempre retida. E as acções, que ficam com aqueles que as praticam...

     O restaurante, com vista para os campos, e o bacalhau à lagareiro, regado a azeite suave, daquele que nos lembra os pratos da nossa mãe. Demais, acresce o tempero da companhia e das palavras trocadas meio em surdina, pontuadas aqui e ali por um sorriso mais, uma gargalhada, um olhar aveludado. Bebeu-lhe o olhar, amou-lhe o sorriso...

     Lá no alto, naquele local onde o vento trabalha, fazendo rodar as velas, os moinhos continuavam a mostrar a sua beleza, a paisagem deslumbrante que enche o olhar e delicia o sentir, as conversas eternas e ternas, o carinho e a entrega que se dá em tão poucos dias da nossa vida. Porventura, talvez este seja o primeiro dia do resto das nossas vidas...

     Certo é que o senhor sol vai sempre dormir. E leva-te com ele. Vagueio por entre outros moinhos, que trago comigo, relembro momentos tão nossos à sombra do imenso pinhal, recordo promessas nunca feitas e que também não precisam de o ser. Para trás fica sempre a partida, um "a gente vê-se por aí", uma esplanada, um café e um doce, o vento que vem da serra, que me acaricia o rosto e me diz que é possível...

     Ninguém nasceu para viver sozinho, mas poucos de nós encontram o verdadeiro complemento da vida. Perdemo-nos em vidinhas fúteis e sem nexo apenas para não ficarmos sós, pelo medo que nos inspira a solidão, pelo receio que temos de enfrentar a vida. De mim falo também porque estes receios são comuns a tantos de nós, embora eu goste muito da minha solidão. Mas estes dias valem por tudo, pois dão-me o sentido que a vida pode ter. E a verdade é que amar nunca é fácil, mas também não é isso que se quer...

     A velha barca serrana despede-se, ali onde atracou, no meio da rotunda. Mar chão, rio calmo, não há mais obstáculos no seu caminho, nem são precisos homens às cordas para a puxar rio acima. O caminho segue em duas direcções distintas que o tempo se encarregará de juntar um dia. Pois, que o tempo sente. Porque hoje, como em tantos outros dias, o que conta é o que me vem no coração e o que trago na memória. E os castanheiros e os moinhos hão-de estar sempre lá...

 

A gente vê-se por aí...

 

 


sinto-me: Intenso...
música: Balançar - Mafalda Veiga

vadiado por homem de negro às 06:34
Ligação vadia | Vadia para mim

7 comentários:
De gi a 12 de Janeiro de 2009 às 20:22
Olá amigo,

Tirando a hora, imprópria para qualquer publicação, sobretudo nestes gélidos dias que se têem sentido, este texto sentido dos sentimentos e sentidos apurados, é a prova que o tempo sente...
Muito lindo...o texto e as imagens...como sempre.
Vadiar faz mesmo muito bem, bem acompanhados, torna os dias incomparáveis!

beijito vadio e amigo
gi


De homem de negro a 15 de Janeiro de 2009 às 10:38
Olá...
Nem mais, cara Gi, de facto as vadiagens em boa companhia serão sempre melhores. Um destes dias há-de calhar-nos a nós, já que não houve míscaros, podem ser sempre vales e montes ou até memo grutas...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


De nao tenho blog a 12 de Janeiro de 2009 às 12:48
se fosses muito homem não vinhas aqui escrever os teus encontros romanticos com mulheres casadas. mas espera sentado.


De Cristal a 9 de Janeiro de 2009 às 18:20
Conforme tu te sentes "Intenso" também este texto está intenso e escreves ao pormenor algo que somente agora é uma recordação...
Beijos cristalinos


De homem de negro a 15 de Janeiro de 2009 às 10:45
Olá...
E não são as recordações o que trazemos das nossas vidas passadas? À cautela, eu levo sempre a máquina fotográfica...
Um beijo vadio no sorriso que encanta o homem, a gente vê-se por aí...


De IN_Imaginavel a 9 de Janeiro de 2009 às 16:47
gosto! Das palavras que não temem desnudar a alma....que falam de coisas que existem....dessassossego, solidão, sorrisos, eu/tu/nós...VIDA!
Escreves com um sabor a sal e terra molhada ...gosto!

A gente lê-se por aí........


De homem de negro a 15 de Janeiro de 2009 às 10:46
Olá...
Não tenho medo das palavras, nem dos sentimentos, tenho apenas receio de não saber como lidar com ambos, tão somente isso...
Um beijo vadio, a gente vê-se por aí...


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homem de negro
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